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A comunicação institucional no Brasil valoriza o pensamento crítico? O que você acha?

Reportagem publicada pela newsletter Folha Carreiras, em 14 de setembro último, sob o título “Pensamento crítico ganha espaço nas empresas em meio à era da IA”, chama a atenção para o fato de a postura crítica, indiscutivelmente relevante, estar sendo, pouco a pouco, reconhecida como estratégica pelas empresas brasileiras.

Na prática, como acentua a reportagem, assinada por Luana Franzão, as empresas consideram “o pensamento crítico como "soft skill" (um jargão em inglês para definir habilidades relacionais no trabalho), o que significa, na prática, evitar “que o funcionário busque respostas fáceis ou aceite informações sem verificar fontes e vieses.”

A reportagem menciona um manual que trata especificamente deste assunto, elaborado por uma universidade australiana (Monash University), e que conceitua o pensamento crítico como “o tipo de reflexão na qual você questiona, analisa, interpreta, avalia e julga o que lê, ouve, diz ou escreve".

A reportagem também lista algumas recomendações, explicitadas pela especialista Carolina Costa (diretora de impacto e sustentabilidade da Stone e doutora em pensamento crítico e sistêmico pela Rutgers University)., a serem incorporadas por pessoas que desejam reforçar o seu pensamento crítico, dentre as quais se incluem 1) a leitura frequente de bons livros e até a recomendação de estudar  Filosofia e 2) sair da bolha, ou seja, não se prender apenas aos  ambientes e opiniões com os quais você concorda, porque, desta forma, estará disposto a contemplar novas perspectivas.

Se atentarmos para o conceito de pensamento crítico e para essa prática, que, conforme a reportagem se amplia no mundo corporativo, poderemos, como comunicadores, formular a pergunta que não quer calar: a comunicação organizacional brasileira se caracteriza por uma perspectiva crítica?

Infelizmente, ainda que possamos saudar exceções, notadamente associadas a profissionais éticos que se recusam a repetir conceitos e mesmo práticas ultrapassadas, devemos reconhecer que há desafios importantes no exercício do pensamento crítico nessa área.

Podemos citar, por exemplo, inúmeras posturas e ações que, na verdade, boicotam, dramaticamente, qualquer tentativa de reforçar o pensamento crítico, como a prática abusiva do jornalismo patrocinado e do greenwashing, que definem a falta de ética e transparência na produção e circulação de informações.

O jornalismo patrocinado tem como objetivo subordinar (ou submeter) as informações de caráter jornalístico aos interesses de um grupo, de uma empresa ou de um governo, na maioria dos casos afrontando a veracidade e a integridade das informações. Trata-se de um jornalismo sob encomenda e que não resiste a uma avaliação criteriosa, portanto quase sempre contrário à realidade dos fatos.

O greenwashing é uma manifestação frequente de empresas, governos ou mesmo entidades que buscam, a partir de uma comunicação falsa, não transparente, identificá-las como defensoras do meio ambiente, protetoras da biodiversidade etc, ainda que, na prática, se constituam em exemplos negativos de descompromisso com a sustentabilidade.

O pensamento crítico acaba não prevalecendo também para agências ou assessorias que atuam no mercado e que planejam e empreendem iniciativas para blindar as empresas, estimulando-as à prática de uma comunicação não íntegra, como forma de construir e ampliar a sua imagem ou reputação.

O pensamento crítico exige uma mudança drástica na forma pela qual um conjunto significativo de empresas e profissionais se comunicam com a sociedade e os públicos estratégicos (stakeholders) e, concordando com a tese assumida pela reportagem, representa postura obrigatória.

Num mundo em que as tecnologias disruptivas como a Inteligência Artificial tendem a se firmar e a se expandir muitas vezes com aplicações não éticas, baseadas numa lógica algorítmica que aprofunda os preconceitos e legitima a colonização do pensamento, fica difícil, ainda que indispensável, valorizar o espírito crítico.

Os desafios aí estão e precisam ser superados, mas, convenhamos, ainda há um grande passo a ser dado. Quem sabe, como sempre acontece, as crises provocadas pela produção e circulação de informações não qualificadas ou mentirosas convençam as empresas e os profissionais a adotarem um pensamento crítico verdadeiramente ético. Só o futuro dirá, se estamos no caminho certo. A conferir.

Wilson da Costa Bueno, Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa, consultoria na área de Comunicação Corporativa/ Jornalismo Especializado.