As políticas e ações sobre diversidade e inclusão ganham corpo nas empresas brasileiras e favorecem a imagem das marcas

Ao que parece, o compromisso em promover o incremento da diversidade e da inclusão nas empresas brasileiras está, finalmente, se tornando realidade. O processo tem sido mais lento do que a sociedade deseja e precisa, mas, pouco a pouco, é possível observar que as organizações têm se libertado daquela proposta cosmética que se limitava apenas ao discurso, e que tinha como objetivo principal “limpar a sua imagem”.
Reportagem publicada pelo Valor Econômico, no final de junho passado, assinada por Natália Flach e Bianca Guilherme, sob o título “Marcas que investem na diversidade ganham clientela real”, embora mantenha o tom crítico em relação à verdadeira situação da comunidade LGBT+ em nosso país, reconhece que existem ações e campanhas a esse respeito que merecem ser saudadas.
Segundo a reportagem, algumas marcas (como as empresas de cosméticos Natura, Boticário, Avon e L”Oreal), a Nestlé, a C&A, a Globo e a Heineken, só para citar algumas delas, têm, efetivamente, desenvolvido iniciativas que confirmam o seu compromisso com a diversidade e a inclusão.
A Nestlé, tem investido no incremento e ampliação de ações que reforçam a sua estrutura organizacional e promove, desde 2020, a campanha ”Orgulho do meu RG” que contribui para reduzir a vulnerabilidade de pessoas trans, travestis e não binárias, o que, segundo Augusto Drumond, gestor de diversidade e inclusão, representa um compromisso permanente.
A Globo, como é possível verificar, vem contando histórias em séries e novelas envolvendo personagens LGTB+ e, ao mesmo tempo, tem permitido e/ou estimulado que alguns de seus apresentadores ou repórteres, mesmo ao vivo, revelem a sua condição de adeptos da comunidade.
A C&A tomou a iniciativa louvável de convidar pessoas LGBT+ para criar uma coleção sem gênero. A gerente sênior Cyntia Kasai, que incorpora também a comunicação da empresa, em entrevista ao jornal Valor, sustenta a tese de que “uma empresa só é verdadeiramente relevante quando está conectada à realidade da sociedade onde atua” e que, por isso, a pauta comprometida com esta questão “não é vista como um compromisso pontual, mas como um dos alicerces da estratégia de negócios”.
A Heineken patrocina a Parada LGBT+, de São Paulo, há sete anos e vê, com preocupação, a fuga de patrocinadores neste momento, especialmente por causa da polarização política e social que caracteriza esta temática. Reafirma que o seu “compromisso com diversidade e inclusão segue firme no Brasil e na América”, entendendo, segundo a reportagem, que, “quando uma marca acredita na causa, ela tem que ir até o fim”.
A L’Oreal, que também patrocina a parada do Orgulho LGBT+ paulista, lançou uma marca- Matrix – no Brasil, valendo-se do slogan “Para todos os cabelos. Todos os humanos”, visando “ser inclusiva e atender a todos os tipos de cabelos e identidades”. Ao mesmo tempo, tem patrocinado outras iniciativas, como a 24ª Feira da Diversidade e estabelecido parcerias importantes com o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+ e a Câmara de Comércio LGBT do Brasil.
As empresas certamente não estão desenvolvendo estas atividades apenas por identificação com a causa: elas têm a convicção de que estas iniciativas fortalecem as suas marcas e contribuem para o incremento dos seus negócios.
A reportagem do Valor Econômico traz dados interessantes de uma pesquisa realizada pela consultoria NielsenIQ, revelando que cerca de 2,4 milhões de domicílios no país contam com ao menos uma pessoa LGBT+ e que a comunidade, se considerados os seus apoiadores, atinge 20 milhões de lares. Há estimativas trazidas pelo estudo – “Rainbow Homes – de que estas pessoas movimentaram mais de 18 bilhões de reais em 12 meses (encerrados em março de 2025), o que, convenhamos, não é algo que possa ser ignorado por determinados segmentos empresariais.
Esperamos que, com o conhecimento da realidade que cerca a comunidade LGBT+ em nosso país e da divulgação destas iniciativas, que merecem aplausos, o apoio à causa seja significativamente incrementado em futuro próximo. Fica também registrado aqui o nosso repúdio a iniciativas oportunistas de muitas empresas que apenas buscam agregar valor às suas marcas pelo desenvolvimento de campanhas que não fincam raízes e apenas buscam aumentar as suas receitas.
A hipocrisia empresarial não interessa à comunidade LGBT+ e à sociedade de maneira geral, muito pelo contrário: ela serve para desqualificar processos de gestão e de comunicação que não estão efetivamente comprometidos com a promoção da diversidade e da inclusão.
É preciso estar vigilante e mobilizado para denunciar os desvios e para valorizar as iniciativas verdadeiramente sérias.
Wilson da Costa Bueno, Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa, consultoria na área de Comunicação Corporativa/ Jornalismo Especializado.