Fibras em excesso e neurônios em falta: É preciso atenção redobrada com o da IA no Jornalismo
Os usuários dos portais Terra e do jornal Estado de Minas tomaram conhecimento, no final de junho, de uma notícia que pareceu surpreendente, e que tinha como título "Fibras em excesso: especialistas alertam para efeitos colaterais de tendência das redes sociais". Os jornalistas e estudiosos da área também leram o texto e reagiram imediatamente.
Na verdade, ele estava respaldado em entrevistas simuladas, portanto falsas, que eram associadas a especialistas que não existem e mereceu, de imediato, críticas severas, com uma manifestação inclusive da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) que exigia, com urgência, a regulamentação do uso da IA na produção jornalística.
Sim, é verdade que os dois portais reconheceram o erro e retiraram do ar o texto absurdo, produzido pela agência Giro 10, e que tinha como clientes de seus conteúdos, além do Terra e do Estado de Minas, outros veículos de comunicação. Mas o mal já estava feito e escancarou o risco e o prejuízo nefasto que o uso de IA pode acarretar à credibilidade jornalística, quando não realizado de forma competente, ética e responsável.
Evidentemente, não foi a primeira vez e, infelizmente, não será a última, que ferramentas de IA retornam com alucinações, mas não é possível, de forma alguma, naturalizar esta situação.
Todos sabemos que a aplicação de IA pode acarretar benefícios em diversas áreas de conhecimento e num conjunto significativo de atividades, o que nos obriga a reconhecer que demonizar o seu uso não é a atitude correta. Mas, como reza o ditado popular, “vamos devagar com o andor que o santo é de barro”.
Inúmeros veículos de imprensa, no mundo todo e também no Brasil, têm definido diretrizes a serem seguidas pelas redações no sentido de evitar que informações imprecisas, propositalmente errôneas, sejam incorporadas aos textos jornalísticos, o que não representa apenas um desserviço à sociedade, mas, e principalmente, para a imagem, a reputação dos profissionais de imprensa.
A professora Elizabeth Saad e o mestrando Eliseu Barreira Junior, mestrando, da Escola de Comunicações e Artes da USP, em artigo publicado no Jornal da USP (veja link ao final) destacam o fato de que “novos processos cognitivos passaram a complexificar o fazer jornalístico” e que tem sido crescente “a incorporação de tecnologias digitais à produção, à prestação de serviços e à presença institucional em canais de comunicação”. Segundo os autores, “no jornalismo, isso significou tanto a adoção de ferramentas automatizadas quanto a reorganização da presença editorial em diferentes meios. Em vez de concentrar a experiência jornalística em um ambiente único, veículos passaram a estruturar ecossistemas complexos, nos quais conteúdos e produtos circulam de maneira articulada por vários pontos de contato.”
A inteligência artificial generativa, hoje protagonista na produção e disseminação de conteúdos, se torna, segundo eles, a “orquestradora do jornalismo contemporâneo,” ou seja, a “IA não opera apenas como mais uma tecnologia incorporada ao jornalismo, mas como um tecido orquestrador que reorganiza a própria arquitetura do consumo, da distribuição e da monetização da informação”. Para Beth Saad e Eliseu Barreira, “há um deslocamento do extrativismo de dados para formas ampliadas de extração do conhecimento humano”, de tal forma que a mediação algorítmica contribui decisivamente para que “a circulação do conteúdo passa a ocorrer de forma fragmentada, recombinada, reinterpretada e representada em múltiplos contextos para diferentes usuários”.
Os autores encaminham a sua argumentação para um ponto que merece atenção prioritária nesse debate: a orquestração provocada pela plataformização e pela IA não é neutra, muito pelo contrário. Esclarecem eles, de maneira contundente: Ao moldar silenciosamente a experiência informativa, a IA pode reforçar preferências passadas, replicar bolhas de interesse, priorizar determinados formatos e reproduzir desigualdades já presentes na estrutura social. Trata-se de uma não neutralidade amplamente discutida na literatura sobre colonialismo de dados, vieses algorítmicos e silenciamento de vozes periféricas.”
É importante considerar, portanto, que o uso da IA no Jornalismo não deve ser visto como um mero recurso à disposição dos jornalistas, mas a adesão a uma cultura e a uma prática que transformam padrões de produção e ocultam vieses informativos a serviço de interesses de toda ordem.
As notícias recentes (e frequentes) de que as empresas produtoras de IA buscam apoio de governos, em particular, neste momento, do Trump, com sua truculenta disposição de dominar o mundo e agigantar o império dos Estados Unidos, evidenciam o risco e a ameaça que tecnologias sem controle e aplicadas sem ética e transparência representam para o universo da informação e para a sociedade como um todo.
O caso da Giro 10, com o alardeamento dos efeitos colaterais das fibras, é apenas um exemplo de distorções que serão cada vez mais presentes no mundo da notícia e na dinâmica geopolítica da comunicação contemporânea.
Os profissionais éticos, os governantes responsáveis e comprometidos com a qualidade da informação e contrários aos lobbies formidáveis das big techs, os jornalistas e comunicadores em geral precisam estar vigilantes e mobilizados para enfrentar esta transformação que certamente pode comprometer o nosso futuro.
Fica aqui o alerta de Beth Saad e Eliseu Barreira: “é preciso aprofundar a investigação sobre os impactos da IA nas estratégias de produtificação de conteúdo, nos modelos de negócio, na exploração de dados e na autonomia editorial.”
Enfim, nossas mentes, nossas empresas e organizações em geral precisam se preocupar menos com os efeitos colaterais das fibras e estimular os neurônios que mobilizam o espírito crítico para as nem sempre vantajosas tecnologias de produção e circulação de informações.
As tecnologias tendem, cada vez mais, a moldar o nosso futuro e devemos estar preocupados com ele: afinal, como escancara um pensamento, carregado de humor e de uma verdade indiscutível: é no futuro que passaremos o resto da nossa vida.
Recomendamos fortemente a leitura do texto integral do artigo dos colegas da ECA/USP, disponível AQUI.
Wilson da Costa Bueno, Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa, consultoria na área de Comunicação Corporativa/ Jornalismo Especializado.