O jornalismo especializado ganha musculatura. Mas enfrenta as dores do crescimento

O jornalismo especializado, que objetiva a cobertura qualificada de temas atuais e relevantes, tem experimentado crescimento significativo nos últimos anos, com a participação de profissionais de imprensa e de especialistas nas diversas áreas do conhecimento. Já nos acostumamos com as expressões “jornalismo científico”, “jornalismo ambiental”, “jornalismo em saúde”, “jornalismo rural”, “jornalismo cultural”, além dos, já sobejamente conhecidos, “jornalismo econômico, político e esportivo”, de larga tradição no Brasil e em todo o mundo.
Além da prática profissional, é preciso reconhecer que o jornalismo especializado tem se destacado como objeto de estudo e de pesquisa na Academia, com a produção de dissertações e teses que o contemplam.
É possível resgatar inúmeros programas de pós-graduação que mantêm linhas de pesquisa nessas temáticas específicas, bem como encontrar grupos organizados e competentes de pesquisa com esse foco, cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq e certificados pelas nossas principais universidades.
O crescimento desta atividade profissional, no entanto, tem sido acompanhado por um número razoável de desafios que se colocam diante dos jornalistas dedicados a esta prática.
Podemos, de imediato, listar dois destes desafios: a) a capacitação profissional e b) a pressão de interesses extra jornalísticos.
Dada a complexidade de algumas áreas (meio ambiente, ciência, tecnologia e inovação, Medicina e saúde, para só citar alguns casos), o profissional que nelas transita, visando à sua divulgação, precisa ter conhecimento mais do que trivial dos conceitos, processos e questões prioritárias que as caracterizam, sob pena de ver comprometida a qualidade do seu trabalho.
Com raras exceções, a grade curricular dos cursos de Jornalismo não inclui disciplinas, obrigatórias ou mesmo eletivas, que favoreçam a capacitação para o trabalho em jornalismo especializado, o que praticamente obriga os futuros profissionais a se tornarem autodidatas ou a buscarem especialização em outras áreas, após a sua graduação, o que efetivamente tem ocorrido.
Um desafio adicional, e não menos importante, consiste em identificar e combater interesses de toda ordem que rondam e constrangem a produção de notícias e reportagens em jornalismo especializado. Lobbies empresariais e políticos têm buscado influenciar (ou até mesmo sufocar) esta produção, de modo a manter os seus privilégios, sobretudo em áreas controversas e sensíveis que dizem respeito à ciência e tecnologia, ao meio ambiente, à saúde coletiva e assim por diante.
A cobertura de temas como segurança alimentar, produção de fármacos, mineração em terras indígenas, populações tradicionais ou que contemplam a relação entre agronegócio e degradação ambiental contraria, de maneira recorrente, os interesses de grandes corporações e de governos que buscam impor as suas narrativas e as suas perspectivas. Em muitos casos, há uma pressão insuportável sobre jornalistas e fontes, buscando impedir que informações contrárias aos seus interesses sejam divulgadas.
Chama a atenção também o fato de que muitos veículos (jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, portais) têm se tornado cúmplices destes grandes interesses, proibindo a cobertura de determinados temas ou deturpando as informações para ludibriar a opinião pública em favor de interesses comerciais.
O jornalismo especializado deve estar comprometido com o interesse público, com as evidências científicas e com a qualificação da cobertura jornalística, num esforço ingente, mas necessário, de combater o negacionismo, e as fake news.
Wilson da Costa Bueno, Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa, consultoria na área de Comunicação Corporativa/ Jornalismo Especializado.